top of page

Finalmente, sol.

  • Foto do escritor: Susana Monteiro
    Susana Monteiro
  • 19 de jun.
  • 2 min de leitura

Afastamos a cortina, levantamos a persiana e somos invadidos por uma sensação imediata de bem-estar. Depois de semanas de chuva persistente e dias cinzentos, é comum este sentimento de cansaço, desmotivação e até alguma tristeza. Mas afinal, porque se forma esta “nuvem” por cima das nossas cabeças?


À medida que entramos em março, os dias começam quase impercetivelmente a alongar-se e o nosso cérebro também entra em transição. A luz é um regulador do chamado relógio biológico. Ao atravessar o olho, a luz ativa uma pequena estrutura no cérebro que coordena os ritmos circadianos, o núcleo supraquiasmático. Com o iniciar de um novo dia, os níveis de cortisol sobem e a produção de melatonina é suprimida, promovendo um estado de alerta e energia. Ao entardecer, a diminuição da luminosidade permite que o organismo abrande e se prepare para o sono. Estes ritmos, que influenciam a forma como nos sentimos, não variam apenas ao longo das 24 horas do dia, ajustando-se também às mudanças sazonais na duração e intensidade da luz.


A neurociência consegue agora identificar de forma mais concreta este efeito sazonal no cérebro. Num estudo liderado por Islay Campbell e Gilles Vandewalle, da Universidade de Liège, publicado na revista Nature Communications em dezembro de 2025, os investigadores analisaram, com ressonância magnética funcional de alta resolução, a atividade da amígdala, uma região cerebral central no processamento das emoções. Verificaram que, no início do inverno, determinados núcleos da amígdala respondiam de forma mais intensa a estímulos emocionais. Curiosamente, quando os participantes eram expostos, ainda que brevemente, a luz de maior intensidade, essa atividade diminuía. Mais luz associou-se a menor reatividade emocional.


Embora sejam necessários estudos envolvendo um maior número de participantes (apenas analisaram 29 indivíduos saudáveis) e em condições de exposição natural, estes resultados ajudam a explicar algo que muitos intuitivamente reconhecem na experiência quotidiana. Dias mais luminosos tendem a associar-se a uma experiência emocional mais positiva, marcada por mais tranquilidade e boa-disposição.


Na verdade, a nossa linguagem está repleta de expressões como “ver a luz ao fundo do túnel” ou “um raio de sol”. À luz da neurociência, percebe-se que não são apenas figuras de estilo: a luz é um modulador natural das nossas emoções.

Por isso, com março não chega apenas a primavera e uma mudança no calendário, mas também uma mudança biológica. Num Portugal privilegiado em horas de sol, valorizar a exposição à luz natural pode ser um importante gesto de cuidado com a saúde mental.


Abrir as janelas logo de manhã, caminhar ao ar livre, aproveitar a pausa do almoço fora de portas. Pequenos gestos que sinalizam que a “nuvem” por cima da cabeça pode, por fim, dissipar-se.


Comentários


bottom of page