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É apenas uma dor de cabeça?

  • Foto do escritor: Tatiana Morais
    Tatiana Morais
  • há 6 dias
  • 3 min de leitura

Junho foi o mês da consciencialização da enxaqueca. Ainda assim, para muitas pessoas, a enxaqueca continua a ser vista como uma simples dor de cabeça ou uma desculpa conveniente para cancelar planos. Mas será que compreendemos verdadeiramente o que significa viver com esta doença neurológica?


Imagine que acorda numa manhã aparentemente normal. Tem uma reunião importante, o almoço combinado com amigos e uma lista de tarefas para cumprir. Enquanto prepara o pequeno-almoço, algo parece diferente. Está mais irritável do que o habitual, sente dificuldade em concentrar-se e tem uma vontade inexplicável de comer algo doce. Não sabe ainda, mas o seu cérebro já começou a preparar uma crise de enxaqueca. Ou sabe, se já viver com esta condição há tempo suficiente para reconhecer os sinais.


Horas depois, surgem pequenas luzes brilhantes no campo visual. Algumas pessoas descrevem-nas como linhas em ziguezague; outras sentem dormência numa mão ou têm dificuldade em encontrar palavras. Pouco depois, instala-se uma dor pulsátil, geralmente num dos lados da cabeça, que parece acompanhar cada batimento cardíaco. A luz da cozinha torna-se demasiado intensa. O som dos carros na rua parece amplificado. O cheiro do perfume, que normalmente seria reconfortante, torna-se insuportável. A reunião é cancelada. O almoço fica para outro dia. A prioridade passa a ser encontrar um local escuro e silencioso onde seja possível esperar que a tempestade passe.


Esta experiência pode parecer extrema para quem nunca teve uma enxaqueca, mas é uma realidade frequente para milhões de pessoas. A enxaqueca é uma doença neurológica caracterizada por crises recorrentes que podem durar entre 4 e 72 horas, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como a terceira maior causa de incapacidade no mundo. Embora a dor de cabeça seja o sintoma mais conhecido, está longe de ser o único. Náuseas, vómitos, tonturas, fadiga intensa e elevada sensibilidade à luz, ao som e aos odores fazem frequentemente parte da crise.


O mais curioso é que a enxaqueca não começa quando surge a dor. O cérebro pode apresentar alterações horas ou até dias antes. Muitas pessoas têm sintomas de aviso, conhecidos como pródromo, que incluem alterações de humor, rigidez no pescoço ou desejos alimentares específicos. Depois da dor desaparecer, existe também uma fase de recuperação, chamada pósdromo, durante a qual é comum sentir exaustão física e mental, como se o cérebro estivesse a recuperar de uma maratona.


Apesar da elevada prevalência, a enxaqueca continua rodeada de estigma. Comentários como “bebe mais água”, “toma um comprimido que isso passa” ou “também tenho dores de cabeça” são muitas vezes bem-intencionados, mas acabam por minimizar uma condição que pode ser profundamente incapacitante. A verdade é que não é possível simplesmente ignorar uma crise de enxaqueca. Durante uma crise, muitas pessoas ficam mesmo impossibilitadas de trabalhar, estudar ou participar em atividades sociais.


Nas últimas décadas, a investigação científica permitiu compreender melhor os mecanismos cerebrais envolvidos na enxaqueca e desenvolver tratamentos cada vez mais eficazes. No entanto, compreender a biologia da doença é apenas parte do desafio. A outra parte passa por aumentar a literacia em saúde e promover a empatia.


Talvez por também viver com enxaqueca, compreendo bem a distância que existe entre aquilo que a doença é e aquilo que muitas pessoas imaginam que ela é. Quem nunca passou por uma crise vê apenas algumas horas de dor. Quem vive com enxaqueca conhece também a antecipação, a imprevisibilidade e o impacto que pode ter no trabalho, na vida social e no bem-estar. É precisamente por isso que a consciencialização continua a ser tão importante.


Deixo-lhe um desafio: da próxima vez que ouvir alguém dizer que tem uma enxaqueca, resista à tentação de a comparar com uma dor de cabeça comum. Em vez disso, procure compreender. Porque a ciência ajuda-nos a perceber o cérebro, mas a empatia ajuda-nos a perceber as pessoas que vivem com estas doenças todos os dias.


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