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Entre Pontos e Sinapses: o que o crochet e o tricot ensinam sobre o cérebro

  • Foto do escritor: Daniela Cunha-Garcia
    Daniela Cunha-Garcia
  • 19 de jun.
  • 3 min de leitura

Quando pensamos em crochet e tricot, fazemos em segundos uma associação às nossas avós, às camisolas de Natal (que davam muita comichão), ou aos paninhos com rendas colocados cuidadosamente nos centros de mesa da sala. No entanto, o crochet e o tricot vão muito além da tradição e das demonstrações de afeto. Do ponto de vista neurobiológico, constituem um verdadeiro e completo exercício cognitivo, ativando simultaneamente várias regiões do cérebro e promovendo a neuroplasticidade.


Durante a Segunda Guerra Mundial, o crochet e o tricot deixaram de ser um trabalho doméstico e adaptaram-se a funções mais práticas. Enquanto o mundo enfrentava destruição e escassez de recursos, milhões de voluntários uniram-se para produzir roupas e acessórios destinados a soldados, hospitais e famílias afetadas pela guerra. Este trabalho manual desempenhou um papel social profundamente importante ao dar resposta às necessidades urgentes da guerra, enquanto oferecia esperança e propósito a quem o fazia.


Mas e se o crochet e o tricot não servirem só para vestir? A neurociência explica como estas atividades manuais moldam o cérebro e podem até ter um efeito relaxante. Quando alguém faz crochet ou tricot, várias áreas cerebrais são ativadas em simultâneo. A coordenação entre os olhos e as mãos ativa o córtex motor e o cerebelo, responsáveis pelo controlo e precisão dos movimentos finos dos dedos. Ao mesmo tempo, tarefas como seguir instruções, contar, e manter a concentração envolvem o lobo frontal, associado ao planeamento e atenção.


A estrutura do crochet e do tricot baseia-se em movimentos e padrões repetitivos, o que ajuda a memorizar padrões e reforça os circuitos cerebrais ligados à aprendizagem. Este processo é um reflexo da plasticidade cerebral, ou seja, a capacidade do cérebro se adaptar, modificar, e reorganizar a sua estrutura e funções. Com a prática, os movimentos tornam-se mais fluidos e automáticos. É aqui que esta atividade se torna interessante: é um exercício cognitivo que pode induzir um estado meditativo e acalmar a mente com movimentos rítmicos, associados à libertação de hormonas do bem-estar. Durante a guerra, fazer crochet e tricotar com outras pessoas também permitia partilhar histórias, aliviar o luto, e criar vínculos em tempos de incerteza e desumanização. A nível cerebral, trabalhar com propósito e fazer atividades em grupo ativam o circuito de recompensa, promovendo a libertação de dopamina, serotonina e oxitocina, o que aumenta a sensação de bem-estar e reduz o stress e a ansiedade.


Mas as histórias em torno destas artes manuais são ainda mais surpreendentes. Há relatos históricos de como o tricot foi usado para comunicação e espionagem. Em várias regiões da Europa, mulheres tricotavam à janela enquanto observavam os movimentos militares. Essas informações eram depois codificadas através de símbolos discretos nos seus padrões em construção, sem levantar quaisquer suspeitas. O tricot/crochet e a codificação são semelhantes, combinando pontos ou sinais para criar padrões com significado, como o código Morse ou informático. Assim, crochet, tricot e programação partilham características com as redes neuronais, onde unidades repetidas (pontos ou neurónios) formam estruturas complexas e integradas.


Hoje, o crochet e o tricot são vistos de forma muito diferente: muitos jovens começaram a interessar-se por estas atividades como resposta ao ritmo acelerado da vida moderna. Num mundo dominado por ecrãs e consumo rápido, fazer algo ponto a ponto contrasta com a instantaneidade digital, respondendo à necessidade atual de nos conectarmos connosco, com os outros e com o tempo presente.


O crochet e o tricot vão além da repetição: espelham o cérebro e o coletivo, feitos de associações, padrões e memória. Tal como o cérebro tece redes de neurónios e memórias, também o crochet e o tricot constroem as suas próprias “malhas” de histórias, símbolos e códigos que perduram no tempo, refletindo a continuidade da experiência humana.


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